O óbvio precisa ser dito? – Tirinha

O óbvio precisa ser dito?
Tirinha em aquarela sobre o óbvio. Autor: Caetano Cury.

_Por que ninguém enxerga o óbvio?
_O que é óbvio para você pode não ser para eles.
_Será que eu também não enxergo o que eles enxergam?
_Obviamente.

Por que não compreendemos o outro? Por que nos assustamos com o que outro pensa? Ou sobre o que ele diz em relação ao mundo? Por que a gente fica inconformado quando alguém diz que vai votar em determinado candidato? Perguntamos: Como assim? Ele não vê o óbvio? Ele não vê que esse candidato vai fazer tal coisa se for eleito?

O problema é que nós não sabemos o que está se passando dentro da cabeça do outro. Nós não estamos na pele do outro. Nós não vivemos o que o outro viveu anteriormente para chegar à conclusão que um candidato é melhor que o outro. A visão que cada um tem do mundo é subjetiva. Ou seja, está ligada ao sujeito. E isso não é novo. Essa ideia foi proposta pelo filósofo Immanuel Kant lá no século dezoito.

Antes dele, alguns filósofos como Hume, Locke e Bacon, diziam que as pessoas só podiam conhecer o mundo usando os sentidos (visão, audição, paladar, etc.). Eram os empiristas. Mas os filósofos racionalistas, como Descartes e Leibniz, acreditavam que era possível entender o mundo usando somente a razão, porque os sentidos nos pregam peças.

Mas Kant achava que o conhecimento se processava tanto pela razão como pela experiência. Então ele juntou as duas coisas e acrescentou um novo elemento, a subjetividade. Por exemplo, o que eu ouço com meus ouvidos (experiência) se processa na minha cabeça (razão) de acordo com aquilo que eu já experimentei antes (subjetividade).

Assim, eu interpreto o mundo do meu jeito. Tudo depende do que se passa no espaço e no tempo dentro de mim. Então, antes que sair brigando com o primo por causa de política no grupo no WhatsApp, lembre-se que o que é óbvio pra você, pode não ser para ele. E o que é óbvio para ele, pode não ser para você.

Se alguém não enxerga o que parece claro para você, qual é a sua reação?

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Referências:

Crítica da Razão Pura
Dicionário de Filosofia
O Mundo de Sofia
O Livro da Filosofia

Liberdade e Necessidade em Hume

Liberdade e necessidade

É compreensível que discussões sobre temas metafísicos se arrastem ao longo dos séculos sem um consenso. Mas nada justifica que assuntos ligados à experiência cotidiana caiam em uma discordância eterna. Em “Uma investigação sobre o entendimento humano – Seção 8 – Da liberdade e necessidade”, David Hume promete uma resposta que coloque fim às controvérsias a respeito das doutrinas de liberdade e necessidade, temas que o autor considera passíveis de análise no campo da experiência cotidiana. O objetivo de Hume é provar que sempre houve um consenso entre as duas doutrinas e que as diferenças de entendimento estavam apenas nas palavras. Ou seja, que as ações humanas consideradas livres na verdade estão conectadas a alguma necessidade.

O homem é livre para agir?

O autor procura mostrar que, assim como existe uma interdependência na interação entre objetos materiais (o movimento advém de uma força, por exemplo), também há causas que impulsionam as ações humanas e que tais relações obedecem a um certo padrão, em maior ou menor grau. Ele sugere que, se a mente humana tem a capacidade de deduzir os fenômenos da natureza, baseado em experiências anteriores, o homem também pode perceber uma determinada previsibilidade em relação ao próprio comportamento:

Quer conhecer os sentimentos, inclinações e modo de vida dos gregos e romanos? Estude bem o temperamento e as ações dos franceses e ingleses; você não pode estar muito enganado ao transferir para os primeiros a maioria das observações que fez sobre os segundos. A humanidade é tão semelhante em todas as épocas e lugares que a história não nos revela nada novo ou estranho nesse aspecto. (HUME, 1999, p. 379)

Liberdade e Necessidade em David Hume
David Hume, por Caetano Cury

Além do comportamento, as relações sociais também são uniformes, segundo o empirista. Ele cita como exemplo um artesão que espera proteção da lei para poder trabalhar e também acredita que seu produto será vendido para outras pessoas. Esta expectativa é baseada em experiências acumuladas, em hábitos. Todos os artesãos esperam o mesmo. E como as ações do homem são de certo modo padronizadas, tomamos decisões a partir desta conclusão, assim como um presidiário procura fugir quebrando as pedras da prisão em vez de tentar convencer um carcereiro a libertá-lo. Neste exemplo de Hume, o preso deduz, com base em experiências passadas, que a natureza do agente penitenciário é irredutível. Outro exemplo do autor se passa em um movimentado cruzamento de Londres: “Um homem que ao meio-dia deixe sua bolsa recheada de ouro na calçada de Charing Cross pode tão bem esperar que ela voará para longe como uma pena como que a encontrará intacta uma hora mais tarde.” (HUME, 1999)

A conclusão de que a bolsa não ficará intacta, segundo Hume, é explicada por aquilo que ele chama de causalidade, uma faculdade da mente, uma inferência mental. Se inferimos que a bolsa não vai sair voando, também inferimos que o ouro será saqueado. No entanto, segundo o autor, a humanidade tem maior propensão para perceber a relação de causa e efeito na natureza do que nos processos da mente. Para Hume, as pessoas concluem que a mente funciona de modo diferente das relações entre os objetos e que seus efeitos provêm do pensamento e da inteligência, o que podemos interpretar como livre arbítrio.

Mas, logo que nos convencermos de que tudo o que sabemos acerca de qualquer tipo de causação é simplesmente a conjunção constante de objetos e a consequente inferência de um ao outro realizada pela mente, e descobrirmos que todos admitem universalmente que essas duas condições ocorrem nas ações voluntárias, reconheceremos talvez mais facilmente que essa mesma necessidade é comum a todas as causas. (HUME, 1999, p. 387)

Se não houver conjunção entre os objetos teríamos o acaso. Mas o acaso, destaca o autor, se bem observarmos, não existe na natureza. Segundo Hume, liberdade oposta à necessidade seria o mesmo que o acaso. Assim temos uma crítica à doutrina do livre arbítrio. Se todas as coisas têm uma causa, o livre arbítrio, fruto do acaso, não pode existir. Deste modo, todas as ações humanas são vinculadas a alguma causa ou necessidade, portanto o homem não é livre para agir.

Por fim, neste seu “projeto de reconciliação” da liberdade com a necessidade, Hume antecipa possíveis críticas que suas ideias possam receber. Ele preocupa-se em dizer que sua doutrina é consistente com a religião e a moral e também reconhece que sua reflexão é restrita para a análise dos objetos da vida cotidiana. Logo, é inacessível ao pensamento humano compreender como liberdade e necessidade se processam nas ações de Deus.

Referências:

HUME, D. An Enquiry Concerning Human Understanding. Edited by Tom L. Beauchamp. Oxford: Oxford University, 1999. In: MARÇAL, Jairo (org.). Antologia de Textos Filosóficos. Curitiba: SEED–PR, 2009.

Rousseau – Tirinha sobre a liberdade

Esta tirinha sobre a liberdade mostra o pensador suíço Jean-Jacques Rousseau chegando a conclusão que o Facebook não é um território livre.

Esta tirinha sobre a liberdade mostra o filósofo suíço Jean-Jacques Rousseau chegando a conclusão que o Facebook não é um território livre. A tirinha de Caetano Cury faz parte da série Téo & O Mini Mundo. Esta tirinha é uma interpretação da obra “Do Contrato Social”, um livro importante na história da filosofia e da política. A obra nasceu no Iluminismo e costuma aparecer em vestibulares como o Enem, o Exame Nacional do Ensino Médio.

O que Rousseau diz nessa tirinha sobre a liberdade:

_O Facebook era terra de ninguém. Mas agora tá cheio de regras. O homem nasce livre, mas por toda parte encontra-se acorrentado. Preciso postar isso.

A ideia de que o homem nasce livre está em sua principal obra “Do Contrato Social”. É a primeira frase de Rousseau no primeiro capítulo do Livro I.

Ele quer dizer que antes da civilização, o homem vivia em um estado natural. Era o bom selvagem. O homem selvagem era livre. A terra pertencia a todos. A natureza era seu lar. Com o tempo, o homem se multiplicou e passou a viver em grupos cada vez maiores. O homem foi de um estado natural para um estado de sociedade. Conflitos inéditos surgiram. Esse cenário justifica a assinatura de um pacto para que todos vivam em harmonia.

Na visão de Rousseau, o homem no estado de sociedade é obrigado a ser livre. Parece um paradoxo. Mas é ao limitar as liberdades individuais que se chega ao equilíbrio social.

Ele busca:

“Achar uma forma de sociedade que defenda e proteja com toda força comum a pessoa e os bens de cada sócio, e pela qual, unindo-se cada um a todos, não obedeça todavia senão a si mesmo e fique tão livre como antes”. (Rousseau, 2011, p.25)

Referência:

ROUSSEAU, Jean-Jacques. Do Contrato Social. São Paulo: Ed. Martin Claret, 2011. Título original francês: Du Contrat Social (1762)

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No link abaixo tem outra tirinha sobre o Facebook:

Um ser iluminado