Liberdade e Necessidade em Hume

Liberdade e necessidade

É compreensível que discussões sobre temas metafísicos se arrastem ao longo dos séculos sem um consenso. Mas nada justifica que assuntos ligados à experiência cotidiana caiam em uma discordância eterna. Em “Uma investigação sobre o entendimento humano – Seção 8 – Da liberdade e necessidade”, David Hume promete uma resposta que coloque fim às controvérsias a respeito das doutrinas de liberdade e necessidade, temas que o autor considera passíveis de análise no campo da experiência cotidiana. O objetivo de Hume é provar que sempre houve um consenso entre as duas doutrinas e que as diferenças de entendimento estavam apenas nas palavras. Ou seja, que as ações humanas consideradas livres na verdade estão conectadas a alguma necessidade.

O homem é livre para agir?

O autor procura mostrar que, assim como existe uma interdependência na interação entre objetos materiais (o movimento advém de uma força, por exemplo), também há causas que impulsionam as ações humanas e que tais relações obedecem a um certo padrão, em maior ou menor grau. Ele sugere que, se a mente humana tem a capacidade de deduzir os fenômenos da natureza, baseado em experiências anteriores, o homem também pode perceber uma determinada previsibilidade em relação ao próprio comportamento:

Quer conhecer os sentimentos, inclinações e modo de vida dos gregos e romanos? Estude bem o temperamento e as ações dos franceses e ingleses; você não pode estar muito enganado ao transferir para os primeiros a maioria das observações que fez sobre os segundos. A humanidade é tão semelhante em todas as épocas e lugares que a história não nos revela nada novo ou estranho nesse aspecto. (HUME, 1999, p. 379)

Liberdade e Necessidade em David Hume
David Hume, por Caetano Cury

Além do comportamento, as relações sociais também são uniformes, segundo o empirista. Ele cita como exemplo um artesão que espera proteção da lei para poder trabalhar e também acredita que seu produto será vendido para outras pessoas. Esta expectativa é baseada em experiências acumuladas, em hábitos. Todos os artesãos esperam o mesmo. E como as ações do homem são de certo modo padronizadas, tomamos decisões a partir desta conclusão, assim como um presidiário procura fugir quebrando as pedras da prisão em vez de tentar convencer um carcereiro a libertá-lo. Neste exemplo de Hume, o preso deduz, com base em experiências passadas, que a natureza do agente penitenciário é irredutível. Outro exemplo do autor se passa em um movimentado cruzamento de Londres: “Um homem que ao meio-dia deixe sua bolsa recheada de ouro na calçada de Charing Cross pode tão bem esperar que ela voará para longe como uma pena como que a encontrará intacta uma hora mais tarde.” (HUME, 1999)

A conclusão de que a bolsa não ficará intacta, segundo Hume, é explicada por aquilo que ele chama de causalidade, uma faculdade da mente, uma inferência mental. Se inferimos que a bolsa não vai sair voando, também inferimos que o ouro será saqueado. No entanto, segundo o autor, a humanidade tem maior propensão para perceber a relação de causa e efeito na natureza do que nos processos da mente. Para Hume, as pessoas concluem que a mente funciona de modo diferente das relações entre os objetos e que seus efeitos provêm do pensamento e da inteligência, o que podemos interpretar como livre arbítrio.

Mas, logo que nos convencermos de que tudo o que sabemos acerca de qualquer tipo de causação é simplesmente a conjunção constante de objetos e a consequente inferência de um ao outro realizada pela mente, e descobrirmos que todos admitem universalmente que essas duas condições ocorrem nas ações voluntárias, reconheceremos talvez mais facilmente que essa mesma necessidade é comum a todas as causas. (HUME, 1999, p. 387)

Se não houver conjunção entre os objetos teríamos o acaso. Mas o acaso, destaca o autor, se bem observarmos, não existe na natureza. Segundo Hume, liberdade oposta à necessidade seria o mesmo que o acaso. Assim temos uma crítica à doutrina do livre arbítrio. Se todas as coisas têm uma causa, o livre arbítrio, fruto do acaso, não pode existir. Deste modo, todas as ações humanas são vinculadas a alguma causa ou necessidade, portanto o homem não é livre para agir.

Por fim, neste seu “projeto de reconciliação” da liberdade com a necessidade, Hume antecipa possíveis críticas que suas ideias possam receber. Ele preocupa-se em dizer que sua doutrina é consistente com a religião e a moral e também reconhece que sua reflexão é restrita para a análise dos objetos da vida cotidiana. Logo, é inacessível ao pensamento humano compreender como liberdade e necessidade se processam nas ações de Deus.

Referências:

HUME, D. An Enquiry Concerning Human Understanding. Edited by Tom L. Beauchamp. Oxford: Oxford University, 1999. In: MARÇAL, Jairo (org.). Antologia de Textos Filosóficos. Curitiba: SEED–PR, 2009.

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