Motim

Penso que sigo
Mas finco meu passo
No traço que faço
Em torno de mim

É tenso esse fico
Destroço, cansaço
O compasso me trava
A vida é assim

O imenso boato
Que tudo é concreto
Não conta de fato
Em conter o motim

O denso retrato
Que pinto no alto
Me aponta o trajeto
Que busco enfim

Em verso desfaço
A couraça que enrosca
Do laço me solto
Adeus camarim

O intenso recato
Que sinto inato
Se perde no salto
De um trampolim

O universo abstrato
Agora é meu palco
Lá danço envolto
Por tenro jardim

Pertenço ao espaço
Do canto de um quarto
Pedaço, no entanto
De um mundo sem fim.

Eus

Silêncio. Se imaginou um pássaro e voou dentro de um tórax corroído. Passou por vestígios de amores, sabores, crenças e cores que já não enxergava mais. De repente, encontrou um outro ele. Claro. Pequeno. Imune. Incomum. Uma criança mesmo. Então, o menino caminhou até a porta que dava pra fora. Se sentou e ficou. Ali já não era mais o velho eu, mas um novo ele que encantava a todos nós.

O Menino Joaquim – Crônica

 

 

Um menino sumiu. Desapareceu. Choro. Desespero. Um brinquedo vazio. Frio, o repórter reporta o fato. Nenhuma lágrima. Nenhuma emoção. Um microfone empunhado por uma pedra. De gelo. É assim. Tem que ser. Neutro. Isento. Indiferente. Só que a vida é diferente. É quente. Explosiva. Tem dores, amores e humores. Sensações. Sentimentos. Mas não se envolva, repórter! Não se deixe envolver! Não se deixe. Não, não. Não deixe. Deixe… Tarde demais. Uma lágrima já escorreu. Deve ser o gelo se derretendo. Deve ser.